quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Vocês já ouviram dizer
que ganhar o dia é bom?
Pois eu digo que é bom também perder:
batalhas são perdidas
com o mesmo espírito
com que são ganhas.

Walt Whitman

domingo, 18 de novembro de 2012

Namorados

O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
-Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
-Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listrada?
A moça se lembrava:
-A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
-Antônia, você parece uma lagarta listrada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
-Antônia, você é engraçada! Você parece louca.

Manuel Bandeira

sábado, 15 de setembro de 2012



"Não, não estou dizendo que isto é promessa. Isto aqui é só para tentar ver se eu consigo fazer você ver — certo, olhe, as coisas vêm e vão, certo? Às vezes as pessoas estão mais dentro do que outras vezes. É assim que é. Mas você não agüenta flutuação. Parece que flutuação é proibido. E eu sei que em parte é culpa minha, certo? Eu sei que as outras vezes não fizeram você se sentir muito segura. Mas isso eu não posso mudar, certo? De uma coisa eu sei. E agora eu sinto que toda hora que eu simplesmente não falar ou ficar meio difícil ou quieto você vai pensar que eu estou conspirando para largar você. E isso me machuca o coração. Certo? Machuca o meu coração, só. Quem sabe se eu amasse você um pouco menos ou me importasse com você um pouco menos desse para agüentar. Mas não posso. Então é isso, sim, é isso que são essas malas, eu estou indo embora."

David Foster Wallace em "Breves entrevistas de homens hediondos"

domingo, 2 de setembro de 2012

"A vida é espantosamente curta. Para mim ela agora se contrai tanto na lembrança que eu por exemplo quase não compreendo como um jovem pode resolver ir a cavalo até a próxima aldeia sem temer que – totalmente descontados os incidentes desditosos – até o tempo de uma vida comum que transcorre feliz não seja nem de longe suficiente para uma cavalgada como essa”

do conto "Um médico rural" de Franz Kafka

domingo, 26 de agosto de 2012

"Não volte para um amor antigo. É como um livro que você já leu e já conhece o final."

Daqui

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Amigos 

Amigos que não sabem o quanto são meus amigos. 
Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta 
necessidade que tenho deles. 

A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, 
eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o 
amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. 

E eu poderia suportar, embora não sem dor, que 
tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem 
todos os meus amigos! 

Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus 
amigos e o quanto minha vida depende de suas existências … 

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. 
Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. 

Mas, porque não os procuro com assiduidade, não 
posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. 

Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem 
que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. 
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, 
embora não declare e não os procure. 

E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem 
noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu 
equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, 
construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida. 

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. 
Se todos eles morrerem, eu desabo! 
Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. 
E me envergonho, porque essa minha prece é, em 
síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo. 

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. 
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, 
cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando 
daquele prazer … 

Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a 
roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando 
comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus 
amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber 
que são meus amigos! 
A gente não faz amigos, reconhece-os. 

Vinícius de Moraes

segunda-feira, 4 de junho de 2012

É a tragédia de amar, nada pode ser amado com mais intensidade do que aquilo que nos faz falta.

p. 246 "Extremamente alto, incrivelmente perto".

domingo, 3 de junho de 2012


 "Do lado de fora, ela achou que deveria haver uma palavra para aquilo: uma temperatura do ar perfeita, nem quente nem fria. Um grau a menos e ela talvez sentisse um leve receio por não ter levado uma jaqueta. Um grau a mais e talvez uma película de suor brilhasse junto à linha do cabelo. Mas, naquela medida exata, Irina não precisava de agasalho nem de brisa. Se houvesse uma palavra para essa temperatura, teria que haver um corolário para o êxtase particular de saudá-la — a despreocupação, a ausência de necessidade, a suspensão da urgência, como se o tempo pudesse ou devesse parar. Em geral, a temperatura era uma batalha; somente nesse fulcro exato ela era um efetivo deleite."

p. 42 de "O mundo pós-aniversário", de Lionel Shriver

sábado, 2 de junho de 2012

“I don’t suppose I really know you very well - but I know you smell like the delicious damp grass that grows near old walls and that your hands are beautiful opening out of your sleeves and that the back of your head is a mossy sheltered cave when there is trouble in the wind and that my cheek just fits the depression in your shoulder.”

- Zelda Fitzgerald, in a letter to F. Scott Fitzgerald

quarta-feira, 30 de maio de 2012

“A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, de verdade”. 


Guimarães Rosa in: "A terceira margem do rio"

quinta-feira, 24 de maio de 2012

“Abaixo a contemplação! Abaixo os versos de amor que não sirvam para que a mulher amada ceda enfim!"




Mário de Andrade

segunda-feira, 14 de maio de 2012

NÃO SE MATE


               Drummond

Carlos, sossegue, o amor 
é isso que você está vendo: 
hoje beija, amanhã não beija, 
depois de amanhã é domingo 
e segunda-feira ninguém sabe 
o que será. 

Inútil você resistir 
ou mesmo suicidar-se. 
Não se mate, oh não se mate, 
reserve-se todo para 
as bodas que ninguém sabe
quando virão, 
se é que virão 


O amor, Carlos, você telúrico, 
a noite passou em você, 
e os recalques se sublimando, 
lá dentro um barulho inefável, 
rezas, 
vitrolas, 
santos que se persignam, 
anúncios do melhor sabão, 
barulho que ninguém sabe 
de quê, praquê. 

Entretanto você caminha 
melancólico e vertical. 
Você é a palmeira, você é o grito 
que ninguém ouviu no teatro 
e as luzes todas se apagam. 
O amor, no escuro, não, no claro, 
é sempre triste, meu filho, Carlos, 
mas não diga nada a ninguém, 
ninguém sabe nem saberá. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

MEMÓRIA 

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Certamente, os factos passados são inapagáveis: não podemos desfazer o que foi feito, nem fazer com que o que aconteceu não tenha acontecido. Mas ao invés, o sentido do que nos aconteceu, quer tenhamos sido nós a fazê-lo, quer tenhamos sido nós a sofrê-lo, não está estabelecido de uma vez por todas. Não só os acontecimentos do passado permanecem abertos a novas interpretações, como também se dá uma reviravolta nos nossos projectos, em função das nossas lembranças, por um notável efeito de “acerto de contas”. O que do passado pode então ser mudado é a carga moral, o seu peso de dívida, o qual pesa
ao mesmo tempo sobre o projecto e sobre o presente.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

"Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe no que ainda não existe."



Wislawa Szymborska

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O fim da estória

Eu nunca sei quando as estórias acabam. Por isso sempre fico preso entre uma e outra, ou entre nenhuma e nenhuma outra; entre um recomeço sem fim e um fim sem termino.
Talvez por ser mais espectador, ou coadjuvante do que protagonista da minha vida, tenha essa enfermidade de não dar conta de quando baixa o pano.
As luzes apagam, o público sai, os colegas limpam a maquiagem e eu continuo lá: Com a fala na cabeça, o texto decorado, aguardando a deixa.
A deixa que nunca vem.
Sempre tive medo das coisas e das pessoas. Um pavor e uma falta de fé.
Talvez por isso eu tenha criado minha própria companhia teatral, onde sou diretor; contra-regra; atores e público.
Eu enceno só para mim uma tragicomédia.
A realidade me faz tão mal e me deixa tão fraco que fico, no fundo do palco, muitas vezes, a sussurrar o texto a mim mesmo.
Às vezes não ouço.
Quase sempre não ouço, porque sussurro baixo e minha voz é trêmula...
O público não entende a peça, logo, não aplaude.
Eu, furioso, demito a todos: ao autor; ao diretor; aos atores...
Expulso o público do teatro e ateio fogo a tudo.
E ali dentro fico eu, junto às cortinas e aos holofotes, incandescentes; queimando, queimando, queimando...


Alejandro da Costa Carriles

Agradecimentos


Estou em dívida com aqueles 
por quem não estou apaixonada. 

Devo a eles o alívio de saber 
que de outros eles estão mais próximos. 

A alegria de não ser 
o lobo de seus cordeiros. 

A paz vem junto deles, e a liberdade 
também, coisas que o amor não sabe dar 
ou sustentar por muito tempo. 

Eu não os aguardo 
correndo da porta para a janela. 
Sou paciente como um quadrante solar, 
pronta a compreender 
aquilo que o amor não compreende, 
pronta a perdoar 
aquilo que o amor não perdoaria jamais. 

De uma carta a um encontro 
não se instala uma eternidade, 
mas apenas alguns dias comuns, semanas comuns. 

Com eles as viagens são bem sucedidas, 
os concertos bem escutados, 
as catedrais bem visitadas, 
as paisagens bem observadas. 

E quando terras e oceanos nos separam, 
trata-se de oceanos e de terras 
bem conhecidos pela geografia. 

A estas pessoas devo o fato de viver 
num mundo sólido, 
num espaço não-lírico e não retórico 
dotado de um horizonte real, móvel, como tem que ser. 

Ah! eles ignoram com certeza 
quantas coisas me trazem em suas mãos vazias. 

("Eu não devo nada a essas pessoas" 
diria o amor 
a esse respeito.) 

- Wislawa Szymborska

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Vers de Société

BY PHILIP LARKIN
My wife and I have asked a crowd of craps
To come and waste their time and ours: perhaps   
You’d care to join us? In a pig’s arse, friend.   
Day comes to an end.
The gas fire breathes, the trees are darkly swayed.   
And so Dear Warlock-Williams: I’m afraid—

Funny how hard it is to be alone.
I could spend half my evenings, if I wanted,   
Holding a glass of washing sherry, canted   
Over to catch the drivel of some bitch   
Who’s read nothing but Which;
Just think of all the spare time that has flown

Straight into nothingness by being filled   
With forks and faces, rather than repaid   
Under a lamp, hearing the noise of wind,   
And looking out to see the moon thinned   
To an air-sharpened blade.
A life, and yet how sternly it’s instilled

All solitude is selfish. No one now
Believes the hermit with his gown and dish   
Talking to God (who’s gone too); the big wish   
Is to have people nice to you, which means   
Doing it back somehow.
Virtue is social. Are, then, these routines

Playing at goodness, like going to church?
Something that bores us, something we don’t do well   
(Asking that ass about his fool research)   
But try to feel, because, however crudely,   
It shows us what should be?
Too subtle, that. Too decent, too. Oh hell,

Only the young can be alone freely.
The time is shorter now for company,
And sitting by a lamp more often brings
Not peace, but other things.
Beyond the light stand failure and remorse   
Whispering Dear Warlock-Williams: Why, of course—

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

We’re born alone, we live alone, we die alone. Only through our love and friendship can we create the illusion for the moment that we’re not alone.
Orson Welles

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Forever – is composed of Nows – (690)


BY EMILY DICKINSON

Forever – is composed of Nows –
‘Tis not a different time –
Except for Infiniteness –
And Latitude of Home –


From this – experienced Here –
Remove the Dates – to These –
Let Months dissolve in further Months –
And Years – exhale in Years –


Without Debate – or Pause –
Or Celebrated Days –
No different Our Years would be
From Anno Dominies –

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Retornos

Voltou. Não disse nada.
Mas estava claro que teve algum desgosto.
Deitou-se vestido.
Cobriu a cabeça com o cobertor.
Encolheu as pernas.
Tem uns quarenta anos, mas não agora.
Existe --mas só como na barriga da mãe
na escuridão protetora, debaixo de sete peles.
Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase
na cosmonáutica metagaláctica.
Por ora dorme, todo enroscado.


Wislawa Szymborska

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

“A ausência de espírito e o fastio dos textos elaborados por cabeças comuns derivam do fato de que elas falam sempre com meia consciência; (...) juntam mais frases inteiras (phrases banales) do que palavras. Pessoas inteligentes falam, em seus escritos, realmente a nós e, portanto, são capazes de nos animar e entreter: somente elas elaboram cada palavra com plena consciência, com escolha e propósito.”


"Shopenhauer sobre o ofício do escritor"

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

“Não lhe sei explicar. Das criaturas de quem gosto muito, nunca digo o nome a outras pessoas. Seria o mesmo que me privar de uma parte delas. Criei-me adorando o segredo. A meu ver só ele é capaz de nos tornar misteriosa ou maravilhosa a vida dos nossos dias. A coisa mais comum, se ocultarmos, é um deleite. Quando saio da cidade, nunca digo aos meus onde vou. Se dissesse, estragaria todo o meu prazer.”


Trecho de "O Retrato de Dorian Gray"

domingo, 29 de janeiro de 2012

                                              Best Society - Philip Larkin



sábado, 28 de janeiro de 2012

Não importa que a tenham demolido: a gente continua morando na velha casa em que nasceu.




                                                                                        Mário Quintana

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

"Porque vivemos num mundo em que as pessoas não têm tempo para elaborar o que é do humano. Muitas vezes eu me deparo com essa situação no consultório. Vejo uma pessoa ali me pedindo antidepressivo porque não consegue mais trabalhar, não consegue mais tocar a vida. Eu sei que ela não consegue mais trabalhar nem tocar a vida porque é a sua vida que se tornou impossível, porque precisa de um tempo que não tem para elaborar o vivido. É óbvio que não é possível, por exemplo, elaborar um luto ou uma separação em uma semana e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Assim como não é possível viver sem dúvidas, sem tristezas, sem frustrações. Tudo isso é matéria do humano, mas o ritmo da nossa vida eliminou os tempos de elaboração. Essa pessoa não é doente – é a vida dela que está doente por não existir espaço para vivenciar e elaborar o que é do humano. Só que esse cara precisa trabalhar no dia seguinte e produzir bem ou vai perder o emprego. Então eu dou o antidepressivo e faço um acompanhamento sério, com psicoterapia, para que esse cara possa dar um jeito na vida e parar de tomar remédios. É um dilema e não tem sido fácil lidar com ele, mas é neste mundo que eu exerço a profissão de psiquiatra. Porque no tratamento da depressão, de verdade, a doença, de fato, é muito difícil obter resultados, mesmo com os medicamentos atuais. Assim como outras doenças psíquicas, quando são doenças mesmo. Os resultados são muito mais lentos – e às vezes não há resultado nenhum. A maioria das pessoas que estamos medicando hoje não é doente. E por isso o resultado é rápido e parece altamente satisfatório. Estas pessoas só precisam dar conta de uma vida que um humano não pode dar conta."


depoimento de um psiquiatra à eliane brum

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

"Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros - no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita."


Do sensacional texto "A liberdade de ver os outros", de David Foster Wallace

Eu queria esta camiseta

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

"Não sei sentir,não sei ser humano,
não sei conviver de dentro da alma triste,com os homens,meus irmãos na terra.
Não sei ser útil,mesmo sentindo ser prático,quotidiano,nítido.
Vi todas as coisas e maravilhei-me de tudo.
Mas tudo ou nada sobrou ou foi pouco,não sei qual,e eu sofri.
Eu vivi todas as emoções,todos os pensamentos,todos os gestos.
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda a gente.
Mas para toda agente isso foi normal e institivo.
Para mim sempre foi a excepção,o choque,a válvula,o espasmo.
Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto demais ou de menos.
Seja como for a vida,de tão interessante que é a todos os momentos,
a vida chega a doer,a enjoar,a cortar,a roçar,a ranger,
a dar vontade de dar pulos,de ficar no chão,
de sair para fora de todas as casas,
de todas as lógicas,de todas as sacadas,
e ir ser selvagem entre árvores e esquecimentos."



Álvaro de Campos

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Retrato em Branco e Preto

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cór
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar, tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retrato
Eu teimo em colecionar

Lá vou eu de novo como um tolo

Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração

domingo, 22 de janeiro de 2012

"E assim prosseguimos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado."


Do final de "O Grande Gatsby" 

sábado, 21 de janeiro de 2012

Me deito só, com vista para o mundo
Calando fundo meus sonhos, minhas queixas,
Mas alço vôo em busca de teus passos
Piso descalço na terra do teu corpo
Suave passo, suave gosto, cheiro de mato
Meu braço lasso, eu lanço em segredo.
Vem ser meu canto, meu verso, meu soneto
Vem ser poema no árido deserto
Serei oásis, silêncio, festejo
Serei sertão nas horas de aconchego...
Da música "Noite de estrelas", por Maria Bethânia

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

"Daí-me a castidade e a continência, mas não agora". 


  Santo Agostinho

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

DECEMBER AT YASE
                                      Gary Snyder
você disse, naquele outubro
junto à grama alta e seca do pomar
quando escolheu ser livre,
“um dia de novo, talvez em dez anos”
depois da faculdade te vi
uma vez. você estava estranha
e eu obcecado com um projeto
agora, mais de 10 anos
se passaram: eu sempre soube
onde você estava –
devia ter ido até você
com a esperança de ter seu amor de volta
você ainda está só
mas eu não fui
pensei que pudesse fazer tudo sozinho.
e assim o fiz
só em sonho, como neste amanhecer
é que a grave e assustadora intensidade
do nosso jovem amor
retorna à minha cabeça, à minha carne
tivemos tudo aquilo
que os outros buscam desesperadamente
abandonamos tudo aos dezenove
me sinto velho, como se eu
tivesse vivido muitas vidas.
e talvez nunca mais saiba agora
se eu sou um tolo
ou se fiz aquilo
que meu karma determina

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

"As almas são incomunicáveis.

 Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

 Porque os corpos se entendem, mas a alma não."

Trecho se "Arte de amar", de Manuel Bandeira

domingo, 8 de janeiro de 2012

"Bom mesmo é o livro que quando a gente acaba de ler 
fica querendo ser um grande amigo do autor, para se poder telefonar para ele toda vez que der vontade. Mas isso é raro de acontecer."

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Em nenhuma outra área a ânsia por um destino é tão forte como na nossa vida amorosa. sendo nós, tantas vezes, obrigados a partilhar a cama com quem não compreende a nossa alma, não será perdoável o fato de acreditarmos (contrariando todas as regras da nossa época iluminada) que havemos de encontrar, um dia, o homem ou a mulher dos nossos sonhos? não poderá nos ser permitido um certo grau de supersticiosa fé numa criatura que trará a solução dos nossos inexoráveis anseios? e embora as nossas preces possam nunca ser respondidas, embora talvez haja fim para o funesto ciclo da incompreensão mútua, se porventura os céus decidirem ter piedade de nós, será realmente legítimo pedir que atribuamos esse encontro ao mero acaso? não teremos direito a, por uma vez, voltar as costas à censura racional e considerar tal acontecimento parte inevitável do nosso destino romântico?


Do início de "Ensaios do amor"
" a maior indisciplina interior junta à máxima disciplina exterior compõe a perfeita sensualidade".


Fernando pessoa , pag.437 do Livro do Desassosêgo

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O tempo existiu esse tempo todo. Não dá para matar o tempo com seu coração. Tudo toma tempo. As abelhas têm de se mexer muito depressa para ficar paradas.
Do conto "Para sempre em cima" de David Foster Wallace