segunda-feira, 31 de outubro de 2011

"Querido Robert,

sempre que estou na cama acordada me pergunto se você também está acordado na cama. você está com alguma dor ou se sentindo sozinho? você me tirou do período mais negro da minha juventude, dividindo comigo o mistério sagrado do que é ser artista. aprendi a ver com você e nunca faço um verso ou desenho uma curva que não venha do conhecimento que consegui durante nosso valioso tempo juntos. o seu trabalho, oriundo de uma fonte fluida, remonta à canção nua da sua juventude. e você fala em ficar de mãos dadas com deus. lembre-se, aconteça o que acontecer, você sempre esteve segurando essa mão, aperte-a com força, robert, não a solte.

na outra tarde, quando você dormiu no meu ombro, eu também cochilei. mas antes pensei em dar uma olhada nas suas coisas e no seu trabalho e, passando por anos de trabalho na minha cabeça, vi que, de todos os seus trabalhos, você ainda é o mais bonito.

o trabalho mais lindo de todos.

Patti
"


Carta escrita por Patti Smith pra Robert Mapplethorpe

sexta-feira, 28 de outubro de 2011


I was born tomorrow
Today I live
Yesterday killed me.
(escritor iraniano que esqueci o nome)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

“Sou um homem doente... Sou mau. Não tenho atrativos. Acho que sofro do fígado. Aliás, não entendo bulhufas da minha doença e não sei com certeza o que é que me dói. Não me trato, nunca me tratei, embora respeite os médicos e a medicina. Além de tudo, sou supersticioso ao extremo; bem, o bastante para res­peitar a medicina. (Tenho instrução su­fi­ciente para não ser supersticioso, mas sou.) Não, senhores, se não que­ro me tratar é de raiva. Isso os se­nho­res provavelmente não compre­en­dem.”

Início de "Notas do subsolo"

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Possibilidades 

Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro-me gostando das pessoas
do que amando a humanidade.
Prefiro ter agulhas e linha à mão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não achar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrevê-los.
Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,
para celebrá-los todos os dias.
Prefiro os moralistas
que nada me prometem.
Prefiro a bondade astuta à confiante demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos conquistadores.
Prefiro guardar certa reserva.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas outras também não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
do que postos em fila para formar cifras.
Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro ponderar a própria possibilidade
do ser ter sua razão.

Wislawa Szymborska


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

" e esse é também o sol que Kristy, com sua pele clara, evita , para permanecer bonita e encontrar o homem que vai amá-la pra sempre"


Do livro Primeiro, o Amor. Depois, o Desencanto - e o resto de nossas vidas.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

“Enquanto vive, o amor paira à beira do malogro. Dissolve seu passado à medida que prossegue. Não deixa trincheiras onde possa buscar abrigo em caso de emergência. E não sabe o que está pela frente e o que o futuro pode trazer. Nunca terá confiança o suficiente para dispersar as nuvens e abafar a ansiedade. O amor é uma hipoteca baseada num futuro incerto e inescrutável”.


(...)



"Não há como saber, pelo menos com antecedência, se viver juntos acabará se revelando uma via de tráfego intenso ou um beco sem saída. A questão é atravessar os dias como se essa diferença não contasse, e portanto de uma forma que torne irrelevante o problema de 'colocar os pingos nos is'".

"Amor Líquido" - Zygmunt Bauman


domingo, 16 de outubro de 2011

Eu tenho um tia que sempre que ia te servir, ela dizia "fala quando está bom". Minha tia dizia "fala quando" e é claro, nós nunca falávamos. Nós não dizemos "quando" porque sempre há a possibilidade de conseguir mais. Mais tequila, mais amor, mais qualquer coisa. Mais é melhor. Tem uma coisa a ser dita sobre o copo pela metade. Sobre saber quando falar "quando". Eu acho que é uma linha imaginável, um barômetro de carência e desejo. É uma coisa completamente individual e depende do que está em questão. Às vezes, tudo que queremos é provar. Outras vezes nada é suficiente, o copo é sem fundo. E tudo o que queremos é mais.


Meredith Grey

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Chorar

Foi na selva, na Amazônia equatoriana. Os índios shuar estavam
chorando a avó moribunda. Choravam sentados, na margem de sua agonia. Uma
pessoa, vinda de outros mundos, perguntou:
Por que choram na frente dela, se ela ainda esta viva? E os que
choravam responderam:
Para que ela saiba que gostamos muito dela. 


Eduardo Galeano Em "O livro dos abraços"

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou - amigo - é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é. 
 

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Saí da casa dele [Bielínski] em estado de êxtase. Parei por um instante na esquina de sua casa, olhei para o céu, para o sol luminoso, para as pessoas que passavam, e compreendi, no mais fundo do meu ser, que aquele tinha sido um momento solene na minha vida, um marco decisivo, que alguma coisa inteiramente nova havia começado.

           Dostoiévski sobre as palavras de Bielínski, em "Diário de um escritor"

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

“fora o amor, a amizade e a beleza da arte, não vejo muitas outras coisas capazes de alimentar a vida humana".

"A elegância do ouriço" Muriel Barbey

domingo, 9 de outubro de 2011

"Daqui nasce um dilema: é melhor ser amado que temido, ou o inverso? Respondo que seria preferível ser ambas as coisas, mas, como é muito difícil conciliá-las, parece-me muito mais seguro ser temido do que amado, se só se puder ser uma delas(...)."

"A aula era sobre problemas de adolescentes e é claro que as meninas começaram a falar de meninos. Até que uma delas, a mais falante, me perguntou como se diz 'desistir' em Inglês. Eu respondi e ela disse, num inglês todo bonitinho:

-Eu desisti do amor.

Doze anos. Tá bom? Doze anos. Sente o drama.

-Desisti mesmo. Desisti do amor.

Vontade de dar um abracinho e dizer que a gente nunca desiste. O pior é isso. Ou melhor, né? Nós tentamos. A gente tenta até se cansar, até fazer papel de idiota, até não fazer mais sentido. A gente tenta de várias maneiras, de todas as maneiras que a gente sabe.

Mas desistir a gente não desiste, Ana Clara. Não adianta."


Um dos muitos posts da Renata que eu queria ter escrito.



sábado, 8 de outubro de 2011

“Gosto de uma linguagem simples e pura, a escrita como a falada, e suculenta, e nervosa, breve e concisa, não delicada e louçã, mas veemente e brusca. Uma linguagem não pedante, fradesca ou de advogado, mas de preferência soldadesca como Suetônio qualifica a de Júlio César, embora eu não perceba bem por que”.


Montaigne


p.s.: um dia quem sabe, serei concisa.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

"Quando morre uma pessoa que é próxima a você, nas primeiras semanas depois da morte essa pessoa fica tão distante de você quanto é possível estar; é só com o passar dos anos que ela se torna mais próxima, e aí chega um momento em que você está quase vivendo com ela. Foi o que aconteceu comigo. A Polônia, a vida judaica na Polônia, está mais próxima de mim agora do que estava naquela época.”


 Isaac Bashevis Singer em resposta a Philiip Roth. Roth tinha perguntado a ele como conseguia escrever de forma tão pungente sobre suas origens depois de tê-las abandonado. Retirado do livro "Entre nós".

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

"Tudo que não é literatura me irrita"


 Kafka.


O que vale para a escrita e a relação amorosa vale também pra vida. Só vale a pena na medida em que se ignora como terminará.
                                                 Michel  Foucault

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Em face dos últimos acontecimentos

Oh! Sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
Que o nosso avô português?

Oh ! sejamos navegantes
Bandeirantes e guerreiros
Sejamos tudo que quiserem
Sobretudo pornográficos.

A tarde pode ser triste
E as mulheres podem doer
Como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).

Teus amigos estão sorrindo
De tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
Fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados,
Que o melhor é ser pornográfico.
Propõe isso a teu vizinho,
Ao condutor do teu bonde,
A todas as criaturas
Que são inúteis e existem,
Propõe ao homem de óculos
E à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
Não quereis ser pornográficos?

Carlos Drummond de Andrade


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

As coisas boas da vida

Uma revista mais ou menos frívola pediu a várias pessoas para dizer "dez coisas que fazem a vida valer a pena". Sem pensar demasiado, fiz esta pequena lista:

- Esbarrar às vezes com certas comidas da infância, por exemplo: aipim cozido, ainda quente, com melado de cana que vem numa garrafa cuja a rolha é um sabugo de milho. O sabugo dará um certo gosto ao melado? Dá: gosto de infância, de tarde na fazenda.

- Tomar um banho excelente num bom hotel, vestir uma roupa confortável e sair pela primeira vez pelas ruas de uma cidade estranha, achando que ali vão acontecer coisas surpreendentes e lindas. E acontecerem.

- Quando você vai andando por um lugar e há um bate-bola, sentir que a bola vem para seu lado e, de repente, dar um chute perfeito - e ser aplaudido pelos serventes de pedreiro.

- Ler pela primeira vez um poema realmente bom. Ou um pedaço de prosa, daqueles que dão inveja na gente e vontade de reler.

- Aquele momento que você sente que de um velho amor ficou uma grande amizade - ou que uma grande amizade está virando, de repente, amor.

- Sentir que você deixou de gostar de uma mulher que, afinal, para você, era apenas aflição de espírito e frustração da carne - a mulher não te deu e não te dá, essa amaldiçoada.

- Viajar, partir….

- Voltar.

- Quando se vive na Europa, voltar para Paris;
quando se vive no Brasil, voltar para o Rio.

- Pensar que, por pior que estejam as coisas, há sempre uma solução, a morte - o assim chamado descando eterno.



Rubem Braga, o mestre da crônica.

domingo, 2 de outubro de 2011

"A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar"


Riobaldo