sábado, 31 de dezembro de 2011

O último dia do ano
Não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
Farás viagens e tantas celebrações
De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
E coral,
Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
Os irreparáveis uivos
Do lobo, na solidão.
O último dia do tempo
Não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
Onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
Uma mulher e seu pé,
Um corpo e sua memória,
Um olho e seu brilho,
Uma voz e seu eco.
E quem sabe até se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
Todos eles... e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
Lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Tal como ocorre às divindades, que só são encontradas nas igrejas,
também as sociedades só são normalmente percebidas quando
surgem nas suas vozes mais “cultas”. Para os tradicionalistas, aqueles
que têm olhos e não vêem, os deuses se acham nos sacrários, nas
capelas e nos livros sagrados de reza e devoção. Para os observadores menos imaginativos e sensíveis, uma sociedade está nas suas ciências, letras e artes. A visão oficial contradiz a voz, a visão do povo e, ainda, a experiência da condição humana que, generosamente, enxerga Deus em toda parte: no rito pomposo e
solene da catedral e na visão tresloucada do místico, nu e faminto em
sua cela de preocupações com o destino dos homens e
sobrecarregado pelo peso fantástico dos múltiplos sentidos desta
vida.

Roberto Damatta In:  O que faz o brasil, Brasil.

sábado, 24 de dezembro de 2011

"Caro senhor Kappus, festeje o Natal com esse sentimento piedoso de que talvez ele precise exatamente angústia por parte do senhor, para começar. Esses dias de transição talvez sejam justamente o tempo emq ue tudo no senhor trabalha nele, como no passado, quando era criança, o senhor trabalhou nisso sem fôlego. Seja paciente, sem má vontade, e pense que o mínimo que podemos fazer é não dificultar sua vinda mais do que a Terra dificulta a chegada da primavera quando ela se anuncia."


De "Cartas para um Jovem Poeta"

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

“Ela esteve também comovida todo aquele dia e, à noite, voltou a ficar doente. Mas era feliz a tal ponto que quase a assustava a sua felicidade. Sete anos, só sete anos! No princípio da sua felicidade, houve alguns momentos em que tinham estado dispostos a considerar aqueles sete anos como sete dias. Ele nem sequer sabia que a vida nova não lhe seria dada gratuitamente, mas que ainda teria de comprá-la caro, pagar por ela uma grande façanha futura... Mas aqui começa já uma nova história, a história da gradual renovação de um homem, a história do seu trânsito progressivo dum mundo para outro, do seu contato com outra realidade nova, completamente ignorada até ali. Isto poderia constituir o tema duma nova narrativa... mas a nossa presente narrativa termina aqui.”


do final de "Crime e Castigo", do Dostoievski

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Do poder de um sorriso

"Sorriu compreensivamente - muito mais do que compreensivamente. Era um desses sorrisos raros que tem em si algo de segurança eterna, um desses sorrisos que a gente talvez depare quatro ou cinco vezes na vida. Um sorriso que, por um momento, encarava - ou parecia encarar - todo o mundo eterno, e que depois se concentrava na gente com irresistível expressão de parcialidade a nosso favor. Um sorriso que compreendia a gente até o ponto em que a gente queria ser compreendido, que acreditava na gente como a gente gostaria de acreditar, assegurando-nos que tinha da gente exatamente a impressão que a gente, na melhor das hipóteses, esperava causar."


Trecho de "O Grande Gatsby" de Scott Fitzgerald

domingo, 18 de dezembro de 2011

"Quando você tem a grande sorte de ser parte de uma família com muito amor, o preço que se paga por essa boa sorte é a morte dos seres dessa família. A tragédia que sempre está presente e muda sua vida para sempre. Mas você a supera crescendo."



Gabrielle Drake, irmã do Nick Drake , no documentário “A skin too few: the days of Nick Drake”




sábado, 17 de dezembro de 2011

“A memória luta contra o tempo. É um cabo de guerra constante. Um dia, em outra terra, vais notar que os sons, os cheiros, as vozes que por toda vida te acompanharam não estão mais contigo. Só a memória pode recuperá-los. Então, vais tentar te concentrar, fazer força para lembrar de algo… da cor das paredes, de um sabor, de um nome de um alguém… e vais te dar conta que é tudo fugaz, que o tempo venceu a memória, que os perdeste. Aí, peço que lembre de teus amigos. Pois são eles que serão ao mesmo tempo inesquecíveis e guardiões daquilo que procuras, procuras, procuras e não consegues recuperar.”


Carlos Trillo em "Él loco Chávez"

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

"Durante toda nossa vida enfrentamos decisões penosas , escolhas morais. Algumas delas tem grande peso. A maioria delas não tem tanto valor assim. Mas definimos a nós mesmos pelas escolhas que fizemos. Na verdade, somos feitos da soma total das nossas escolhas. Tudo se dá de maneira tão imprevisível, tão injusta que a felicidade humana não parece ter sido incluída no projeto da Criação. Somos nós, com nossa capacidade de amar que atribuímos sentido a um universo indiferente. Assim mesmo, a maioria dos seres humanos parece ter a habilidade de continuar lutando e até encontrar prazer nas coisas simples como sua família, seu trabalho  e na esperança que as futuras gerações alcancem uma compreensão maior."


Do filme "Crimes e Pecados", de Woody Allen

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

domingo, 11 de dezembro de 2011

“Amor é isto: a dialética entre a alegria do encontro e a dor da separação. E neste espaço o amor só sobrevive graças a algo que se chama fidelidade: a espera do regresso. Quem não pode suportar a dor da separação não está preparado para o amor. Porque o amor é algo que não se possui, jamais. É evento de graça. Aparece quando quer, e só nos resta ficar à espera. E, quando ele volta, a alegria volta com ele. E sentimos então que valeu a pena suportar a dor da ausência, pela alegria do reencontro.”


Rubem Alves - Ostra feliz não faz pérolas

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O amor acaba

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

domingo, 27 de novembro de 2011

Life doesn't imitate art, it imitates bad television.


Woody Allen

sábado, 19 de novembro de 2011

"Eu sei que atrás desse universo de aparências,das diferenças todas, a esperança é preservada.
Nas xícaras sujas de ontem o café de cada manhã é servido. Mas existe uma palavra que não suporto ouvir e dela não me conformo.
Eu acredito em tudo, mas quero você agora!Eu te amo pelas tuas faltas, pelo teu corpo marcado, pelas tuas cicatrizes, pelas tuas loucuras todas,minha vida.
Eu amo as tuas mãos, mesmo que por causa delas eu não saiba o que fazer das minhas.
Amo o teu jogo triste e as tuas roupas sujas é aqui em casa que eu lavo.
Eu amo a tua alegria mesmo fora de si, te amo pela tua essência e te amo até pelo que você podia ter sido, se a maré das circunstâncias não tivesse te rebanhado nas águas do equívoco.
Te amo nas horas infernais e na vida sem tempo... 
Te amo pelas crianças e futuras rugas.
Te amo pelas tuas ilusões perdidas e teus sonhos inúteis...
Amo teu sistema de vida e morte, te amo pelas tuas entradas, saídas e bandeiras e te amo desde os teus pés até o que te escapa.
Te amo de alma para alma e mais que as palavras, ainda que seja através delas que eu me defendo quando digo que te amo mais que o silêncio dos momentos difíceis, 
quando o próprio amor vacila."


Autor desconhecido



quarta-feira, 16 de novembro de 2011

The naming of cats 
                      T. S. Eliot

The Naming of Cats is a difficult matter,
It isn't just one of your holiday games;
You may think at first I'm as mad as a hatter
When I tell you, a cat must have THREE DIFFERENT NAMES.
First of all, there's the name that the family use daily,
Such as Peter, Augustus, Alonzo or James,
Such as Victor or Jonathan, George or Bill Bailey--
All of them sensible everyday names.
There are fancier names if you think they sound sweeter,
Some for the gentlemen, some for the dames:
Such as Plato, Admetus, Electra, Demeter--
But all of them sensible everyday names.
But I tell you, a cat needs a name that's particular,
A name that's peculiar, and more dignified,
Else how can he keep up his tail perpendicular,
Or spread out his whiskers, or cherish his pride?
Of names of this kind, I can give you a quorum,
Such as Munkustrap, Quaxo, or Coricopat,
Such as Bombalurina, or else Jellylorum-
Names that never belong to more than one cat.
But above and beyond there's still one name left over,
And that is the name that you never will guess;
The name that no human research can discover--
But THE CAT HIMSELF KNOWS, and will never confess.
When you notice a cat in profound meditation,
The reason, I tell you, is always the same:
His mind is engaged in a rapt contemplation
Of the thought, of the thought, of the thought of his name:
His ineffable effable
Effanineffable
Deep and inscrutable singular Name.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Ode à melancolia

Ode On Melancholy

I                                 

No, no, go not to Lethe, neither twist
   Wolfs-bane, tight-rooted, for its poisonous wine;
Nor suffer thy pale forehead to be kiss'd
   By nightshade, ruby grape of Proserpine;
Make not your rosary of yew-berries,
   Nor let the beetle, nor the death-moth be
      Your mournful Psyche, nor the downy owl
A partner in your sorrow's mysteries;
   For shade to shade will come too drowsily,
      And drown the wakeful anguish of the soul.


II

But when the melancholy fit shall fall
   Sudden from heaven like a weeping cloud,
That fosters the droop-headed flowers all,
   And hides the green hill in an April shroud;
Then glut thy sorrow on a morning rose,
   Or on the rainbow of the salt sand-wave,
      Or on the wealth of globed peonies;
Or if thy mistress some rich anger shows,
   Emprison her soft hand, and let her rave,
      And feed deep, deep upon her peerless eyes.


III                                  

She dwells with Beauty - Beauty that must die;
   And Joy, whose hand is ever at his lips
Bidding adieu; and aching Pleasure nigh,
   Turning to poison while the bee-mouth sips:
Ay, in the very temple of Delight
   Veil'd Melancholy has her sovran shrine,
      Though seen of none save him whose strenuous tongue
   Can burst Joy's grape against his palate fine;
His soul shall taste the sadness of her might,
      And be among her cloudy trophies hung.

domingo, 13 de novembro de 2011

 "tudo se ilumina sob a luz do passado. Ele está sempre dentro de nós, olhando pra fora. Do avesso"


Frase de Jonathan Safran Foer , aparece no fim do filme "Uma vida iluminada"

sábado, 12 de novembro de 2011

"O bom diarista", disse Virginia Woolf, "é aquele que escreve para si apenas ou para uma posteridade tão distante que pode sem risco ouvir qualquer segredo e corretamente avaliar cada motivo. Para esse público não há necessidade de afetação ou restrição." Não me imporei restrições, porém sei que estarei sendo influenciado de várias maneiras, ao considerar a hipótese de ser lido pelos meus contemporâneos. Os autores de diários, qualquer que seja sua natureza íntima ou anedótica, sempre escrevem para serem lidos, mesmo quando fingem que ele é secreto. 


Trecho de "Diário de um Fescenino", de Rubem Fonseca

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

As mulheres gulosas

As mulheres gulosas
que chupam picolé
- diz um sábio que sabe -
são mulheres carentes
e o chupam lentamente
qual se vara chupassem,
e ao chupá-lo já sabem
que presto se desfaz
na falácia do gozo
o picolé fuginte
como se esfaz na mente
o imaginário pênis.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Amo a História. Se não amasse não seria historiador. fazer a vida em duas: consagrar uma à profissão cumprida sema mor: reservar outra à satisfação das necessidades profundas - algo de abominável quando a profissão que se escolheu é uma profissão de inteligência. amo a História e é por isso que estou feliz por vos falar, hoje, daquilo que mais amo.


Lucien Febvre

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Pensei em como, todo dia, cada um de nós experimenta alguns poucos momentos que têm apenas um pouquinho mais de ressonância do que outros – ouvimos uma palavra que permanece na nossa mente -, ou talvez tenhamos uma pequena experiência que nos puxa para fora de nós mesmos, mesmo que brevemente – estamos num elevador de hotel junto com uma noiva de véu, digamos, ou um desconhecido nos dá um pedaço de pão para alimentar os patos selvagens na lagoa; uma criancinha começa a conversar com a gente numa lanchonete (...). E se fôssemos reunir esses pequenos momentos num caderno de anotações e guardá-los por alguns meses, veríamos certas tendências emergirem de nossa compilação – surgiriam certas vozes que têm tentado falar através de nós. Perceberíamos que estávamos tendo uma outra vida, uma vida que nós nem sabíamos que estava acontecendo dentro de nós. E talvez essa outra vida seja mais importante do que aquela que consideramos real – esse mundo atormentado, de ruídos e metais. Então talvez sejam esses pequenos momentos silenciosos os verdadeiros acontecimentos que fazem a história de nossas vidas.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Não diria que estava feliz. Não era nada assim tão simples. Estava apenas presente, talvez pela primeira vez na minha vida adulta. O momento não era extraordinário. Mas eu tinha o momento, o possuía por completo. Ele me habitava. Senti que se morresse logo teria conhecido isso, uma conexão com a minha vida, com seus erros e seus tortos sucessos. A chance de ser um dos três homens nus em pé num laguinho de água limpa. Eu não morreria sem me realizar, pois estive aqui, bem aqui e em nenhum outro lugar. Não falei nada. Bobby anunciou que o minuto tinha acabado, e levamos Erich de volta para a margem

Do final de "Uma casa no fim do mundo"

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O desejo da queda

O que é vertigem? Medo de cair? Mas porque temos vertigem num mirante cercado por uma balaustra sólida? Vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio debaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual nos defendemos aterrorizados.


Trecho de "Insustentável leveza do ser"

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Compreender é tentar traduzir em linguagem e a linguagem reduz a 23 letras. Por mais que você queira expandir, há um dicionário com um número de verbetes fixos. Há muito mais afetos no mundo que o número de sentimentos escritos no dicionário. Quando seu sentimento não tem correspondente no dicionário, você fica mal, porque você sente a angústia, um sentimento sem nome. No entanto, qual é o problema de ter um sentimento sem nome? 


Viviane Mosé em entrevista

terça-feira, 1 de novembro de 2011

É alta e bonita; nada tem de angustiado no olhar ou na voz. Mas é tão ávida por qualquer coisa que perturbe os sentidos, que o menor apelo confere ao seu rosto uma expressão que evoca o sangue, o pavor súbito, o crime, tudo o que arruína definitivamente a beatitude e a consciência tranquila.

"História do Olho" - descrição de Simone'

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

"Querido Robert,

sempre que estou na cama acordada me pergunto se você também está acordado na cama. você está com alguma dor ou se sentindo sozinho? você me tirou do período mais negro da minha juventude, dividindo comigo o mistério sagrado do que é ser artista. aprendi a ver com você e nunca faço um verso ou desenho uma curva que não venha do conhecimento que consegui durante nosso valioso tempo juntos. o seu trabalho, oriundo de uma fonte fluida, remonta à canção nua da sua juventude. e você fala em ficar de mãos dadas com deus. lembre-se, aconteça o que acontecer, você sempre esteve segurando essa mão, aperte-a com força, robert, não a solte.

na outra tarde, quando você dormiu no meu ombro, eu também cochilei. mas antes pensei em dar uma olhada nas suas coisas e no seu trabalho e, passando por anos de trabalho na minha cabeça, vi que, de todos os seus trabalhos, você ainda é o mais bonito.

o trabalho mais lindo de todos.

Patti
"


Carta escrita por Patti Smith pra Robert Mapplethorpe

sexta-feira, 28 de outubro de 2011


I was born tomorrow
Today I live
Yesterday killed me.
(escritor iraniano que esqueci o nome)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

“Sou um homem doente... Sou mau. Não tenho atrativos. Acho que sofro do fígado. Aliás, não entendo bulhufas da minha doença e não sei com certeza o que é que me dói. Não me trato, nunca me tratei, embora respeite os médicos e a medicina. Além de tudo, sou supersticioso ao extremo; bem, o bastante para res­peitar a medicina. (Tenho instrução su­fi­ciente para não ser supersticioso, mas sou.) Não, senhores, se não que­ro me tratar é de raiva. Isso os se­nho­res provavelmente não compre­en­dem.”

Início de "Notas do subsolo"

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Possibilidades 

Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro-me gostando das pessoas
do que amando a humanidade.
Prefiro ter agulhas e linha à mão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não achar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrevê-los.
Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,
para celebrá-los todos os dias.
Prefiro os moralistas
que nada me prometem.
Prefiro a bondade astuta à confiante demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos conquistadores.
Prefiro guardar certa reserva.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas outras também não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
do que postos em fila para formar cifras.
Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro ponderar a própria possibilidade
do ser ter sua razão.

Wislawa Szymborska


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

" e esse é também o sol que Kristy, com sua pele clara, evita , para permanecer bonita e encontrar o homem que vai amá-la pra sempre"


Do livro Primeiro, o Amor. Depois, o Desencanto - e o resto de nossas vidas.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

“Enquanto vive, o amor paira à beira do malogro. Dissolve seu passado à medida que prossegue. Não deixa trincheiras onde possa buscar abrigo em caso de emergência. E não sabe o que está pela frente e o que o futuro pode trazer. Nunca terá confiança o suficiente para dispersar as nuvens e abafar a ansiedade. O amor é uma hipoteca baseada num futuro incerto e inescrutável”.


(...)



"Não há como saber, pelo menos com antecedência, se viver juntos acabará se revelando uma via de tráfego intenso ou um beco sem saída. A questão é atravessar os dias como se essa diferença não contasse, e portanto de uma forma que torne irrelevante o problema de 'colocar os pingos nos is'".

"Amor Líquido" - Zygmunt Bauman


domingo, 16 de outubro de 2011

Eu tenho um tia que sempre que ia te servir, ela dizia "fala quando está bom". Minha tia dizia "fala quando" e é claro, nós nunca falávamos. Nós não dizemos "quando" porque sempre há a possibilidade de conseguir mais. Mais tequila, mais amor, mais qualquer coisa. Mais é melhor. Tem uma coisa a ser dita sobre o copo pela metade. Sobre saber quando falar "quando". Eu acho que é uma linha imaginável, um barômetro de carência e desejo. É uma coisa completamente individual e depende do que está em questão. Às vezes, tudo que queremos é provar. Outras vezes nada é suficiente, o copo é sem fundo. E tudo o que queremos é mais.


Meredith Grey

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Chorar

Foi na selva, na Amazônia equatoriana. Os índios shuar estavam
chorando a avó moribunda. Choravam sentados, na margem de sua agonia. Uma
pessoa, vinda de outros mundos, perguntou:
Por que choram na frente dela, se ela ainda esta viva? E os que
choravam responderam:
Para que ela saiba que gostamos muito dela. 


Eduardo Galeano Em "O livro dos abraços"

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou - amigo - é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é. 
 

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Saí da casa dele [Bielínski] em estado de êxtase. Parei por um instante na esquina de sua casa, olhei para o céu, para o sol luminoso, para as pessoas que passavam, e compreendi, no mais fundo do meu ser, que aquele tinha sido um momento solene na minha vida, um marco decisivo, que alguma coisa inteiramente nova havia começado.

           Dostoiévski sobre as palavras de Bielínski, em "Diário de um escritor"

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

“fora o amor, a amizade e a beleza da arte, não vejo muitas outras coisas capazes de alimentar a vida humana".

"A elegância do ouriço" Muriel Barbey

domingo, 9 de outubro de 2011

"Daqui nasce um dilema: é melhor ser amado que temido, ou o inverso? Respondo que seria preferível ser ambas as coisas, mas, como é muito difícil conciliá-las, parece-me muito mais seguro ser temido do que amado, se só se puder ser uma delas(...)."