quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

MEMÓRIA 

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Certamente, os factos passados são inapagáveis: não podemos desfazer o que foi feito, nem fazer com que o que aconteceu não tenha acontecido. Mas ao invés, o sentido do que nos aconteceu, quer tenhamos sido nós a fazê-lo, quer tenhamos sido nós a sofrê-lo, não está estabelecido de uma vez por todas. Não só os acontecimentos do passado permanecem abertos a novas interpretações, como também se dá uma reviravolta nos nossos projectos, em função das nossas lembranças, por um notável efeito de “acerto de contas”. O que do passado pode então ser mudado é a carga moral, o seu peso de dívida, o qual pesa
ao mesmo tempo sobre o projecto e sobre o presente.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

"Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe no que ainda não existe."



Wislawa Szymborska

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O fim da estória

Eu nunca sei quando as estórias acabam. Por isso sempre fico preso entre uma e outra, ou entre nenhuma e nenhuma outra; entre um recomeço sem fim e um fim sem termino.
Talvez por ser mais espectador, ou coadjuvante do que protagonista da minha vida, tenha essa enfermidade de não dar conta de quando baixa o pano.
As luzes apagam, o público sai, os colegas limpam a maquiagem e eu continuo lá: Com a fala na cabeça, o texto decorado, aguardando a deixa.
A deixa que nunca vem.
Sempre tive medo das coisas e das pessoas. Um pavor e uma falta de fé.
Talvez por isso eu tenha criado minha própria companhia teatral, onde sou diretor; contra-regra; atores e público.
Eu enceno só para mim uma tragicomédia.
A realidade me faz tão mal e me deixa tão fraco que fico, no fundo do palco, muitas vezes, a sussurrar o texto a mim mesmo.
Às vezes não ouço.
Quase sempre não ouço, porque sussurro baixo e minha voz é trêmula...
O público não entende a peça, logo, não aplaude.
Eu, furioso, demito a todos: ao autor; ao diretor; aos atores...
Expulso o público do teatro e ateio fogo a tudo.
E ali dentro fico eu, junto às cortinas e aos holofotes, incandescentes; queimando, queimando, queimando...


Alejandro da Costa Carriles

Agradecimentos


Estou em dívida com aqueles 
por quem não estou apaixonada. 

Devo a eles o alívio de saber 
que de outros eles estão mais próximos. 

A alegria de não ser 
o lobo de seus cordeiros. 

A paz vem junto deles, e a liberdade 
também, coisas que o amor não sabe dar 
ou sustentar por muito tempo. 

Eu não os aguardo 
correndo da porta para a janela. 
Sou paciente como um quadrante solar, 
pronta a compreender 
aquilo que o amor não compreende, 
pronta a perdoar 
aquilo que o amor não perdoaria jamais. 

De uma carta a um encontro 
não se instala uma eternidade, 
mas apenas alguns dias comuns, semanas comuns. 

Com eles as viagens são bem sucedidas, 
os concertos bem escutados, 
as catedrais bem visitadas, 
as paisagens bem observadas. 

E quando terras e oceanos nos separam, 
trata-se de oceanos e de terras 
bem conhecidos pela geografia. 

A estas pessoas devo o fato de viver 
num mundo sólido, 
num espaço não-lírico e não retórico 
dotado de um horizonte real, móvel, como tem que ser. 

Ah! eles ignoram com certeza 
quantas coisas me trazem em suas mãos vazias. 

("Eu não devo nada a essas pessoas" 
diria o amor 
a esse respeito.) 

- Wislawa Szymborska

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Vers de Société

BY PHILIP LARKIN
My wife and I have asked a crowd of craps
To come and waste their time and ours: perhaps   
You’d care to join us? In a pig’s arse, friend.   
Day comes to an end.
The gas fire breathes, the trees are darkly swayed.   
And so Dear Warlock-Williams: I’m afraid—

Funny how hard it is to be alone.
I could spend half my evenings, if I wanted,   
Holding a glass of washing sherry, canted   
Over to catch the drivel of some bitch   
Who’s read nothing but Which;
Just think of all the spare time that has flown

Straight into nothingness by being filled   
With forks and faces, rather than repaid   
Under a lamp, hearing the noise of wind,   
And looking out to see the moon thinned   
To an air-sharpened blade.
A life, and yet how sternly it’s instilled

All solitude is selfish. No one now
Believes the hermit with his gown and dish   
Talking to God (who’s gone too); the big wish   
Is to have people nice to you, which means   
Doing it back somehow.
Virtue is social. Are, then, these routines

Playing at goodness, like going to church?
Something that bores us, something we don’t do well   
(Asking that ass about his fool research)   
But try to feel, because, however crudely,   
It shows us what should be?
Too subtle, that. Too decent, too. Oh hell,

Only the young can be alone freely.
The time is shorter now for company,
And sitting by a lamp more often brings
Not peace, but other things.
Beyond the light stand failure and remorse   
Whispering Dear Warlock-Williams: Why, of course—

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

We’re born alone, we live alone, we die alone. Only through our love and friendship can we create the illusion for the moment that we’re not alone.
Orson Welles

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Forever – is composed of Nows – (690)


BY EMILY DICKINSON

Forever – is composed of Nows –
‘Tis not a different time –
Except for Infiniteness –
And Latitude of Home –


From this – experienced Here –
Remove the Dates – to These –
Let Months dissolve in further Months –
And Years – exhale in Years –


Without Debate – or Pause –
Or Celebrated Days –
No different Our Years would be
From Anno Dominies –

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Retornos

Voltou. Não disse nada.
Mas estava claro que teve algum desgosto.
Deitou-se vestido.
Cobriu a cabeça com o cobertor.
Encolheu as pernas.
Tem uns quarenta anos, mas não agora.
Existe --mas só como na barriga da mãe
na escuridão protetora, debaixo de sete peles.
Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase
na cosmonáutica metagaláctica.
Por ora dorme, todo enroscado.


Wislawa Szymborska