quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Agradecimentos


Estou em dívida com aqueles 
por quem não estou apaixonada. 

Devo a eles o alívio de saber 
que de outros eles estão mais próximos. 

A alegria de não ser 
o lobo de seus cordeiros. 

A paz vem junto deles, e a liberdade 
também, coisas que o amor não sabe dar 
ou sustentar por muito tempo. 

Eu não os aguardo 
correndo da porta para a janela. 
Sou paciente como um quadrante solar, 
pronta a compreender 
aquilo que o amor não compreende, 
pronta a perdoar 
aquilo que o amor não perdoaria jamais. 

De uma carta a um encontro 
não se instala uma eternidade, 
mas apenas alguns dias comuns, semanas comuns. 

Com eles as viagens são bem sucedidas, 
os concertos bem escutados, 
as catedrais bem visitadas, 
as paisagens bem observadas. 

E quando terras e oceanos nos separam, 
trata-se de oceanos e de terras 
bem conhecidos pela geografia. 

A estas pessoas devo o fato de viver 
num mundo sólido, 
num espaço não-lírico e não retórico 
dotado de um horizonte real, móvel, como tem que ser. 

Ah! eles ignoram com certeza 
quantas coisas me trazem em suas mãos vazias. 

("Eu não devo nada a essas pessoas" 
diria o amor 
a esse respeito.) 

- Wislawa Szymborska

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